Astrologia
Junho 12, 2018
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Junho 12, 2018
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Impermanência

Tudo o que começa termina. Tudo está sujeito à mudança. Aceitar a impermanência é aceitar a realidade do Universo em constante transformação. É, também, aceitar que nós próprios, enquanto parte deste Universo, estamos em permanente mudança, influenciados por tudo aquilo que nos rodeia.

Não existimos como entidades separadas, antes somos continuamente causa e consequência dos processos que acontecem à nossa volta. De facto, apenas porque a impermanência existe é que a vida é possível. “Algo” existe como consequência de uma manifestação anterior. Procurar imutabilizar a presença desse “algo” – relação, situação, objecto, ideia, etc., - nada mais é do que uma tentativa ilusória de travar o processo evolutivo que conduzirá, inevitavelmente, ao sofrimento. A dor é, então, a consequência do apego que tem dificuldade em aceitar o princípio da unicidade da vida.

O apego perpetua a ilusão da imutabilidade, contrária à ordem, à beleza e harmonia do Universo, onde nada existe em separado. O apego à forma deriva do medo do ego que, na sua tentativa de nos proteger do sofrimento, procura manter-nos em segurança, evitando situações mais ou menos desconhecidas, que nos deixem à mercê de factores que poderemos não controlar. Tentará, por todos os meios, manter a previsibilidade, continuidade e estabilidade dos processos. Tentará também garantir a permanência da noção de realidade enquanto experiência percebida pelos órgãos dos sentidos, inconsciente de que essa realidade não é, de facto, a Realidade, mas uma representação interna, condicionada pelas vivências experimentadas pela personalidade e, como tal, necessariamente diferenciadas de pessoa para pessoa. Tal irá contrariar o Princípio da Unidade e despoletar o sentimento de separação que irá reforçar novamente o medo, reiniciando o ciclo.

Ao considerarmos a impermanência, transitoriedade e inconstância das formas ficaremos livres para viver o presente, único ponto no tempo em que a vida acontece, e convidados a exercitar características como a entrega, a concentração, a alegria, a generosidade, a compaixão, a aceitação, o desapego, o contentamento. Poderemos vê-la também como um estímulo para sairmos da zona nossa de conforto e experimentarmo-nos em outras formas de expressão, mais criativas e conscientes. Reflectir sobre a impermanência é também reflectir sobre a efemeridade das situações e a necessidade de relativizar a importância das condições que se apresentam na nossa vida – prosperidade e declínio, desgraça e fama, elogio e censura, sofrimento e alegria.

Todas as grandes correntes de pensamento, religiosas ou não, valorizam a importância do desapego e da consciência da inevitabilidade da mudança. O Budismo considera a impermanência (anicca) como a primeira qualidade característica do Universo. Na Bíblia encontramos referência ao mesmo conceito quando lemos, p. ex., que existe um tempo para semear e um tempo para colher, um tempo para nascer e um tempo para morrer (Eclesiastes 3). O Hinduísmo considera que o ser humano possui aspectos permanentes e impermanentes e que, enquanto estiver preso aos fenómenos impermanentes, está sujeito ao sofrimento e ao renascimento. No entanto, quando voltar a sua atenção para a face permanente de si mesmo, será capaz de superar a impermanência e alcançar a libertação. Lavoisier, considerado o pai da química moderna, no séc XVIII, afirmou que na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Mas talvez seja a simples e directa observação da Natureza que, com mais facilidade, nos mostra este conceito a desenrolar-se a cada dia que passa…

Também a Astrologia, enquanto linguagem simbólica, nos ajuda a reflectir sobre este princípio. Temos assim as propostas trazidas por Úrano, com as suas mudanças libertadoras e repentinas, mas também com o espírito de unidade e fraternidade; Neptuno com a dissolução dos limites e o desejo de fusão colectivo; Plutão enquanto princípio regenerador e a percepção de que nada na vida pode permanecer sempre igual, que a vida dá lugar a morte e que a própria morte é o húmus que alimenta a nova vida, seja ela entendida como ideia, circunstância, entidade, consciência ou Universo.
 
 
 
Março 2018, Revista Progredir

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